Não existe um marco capaz de indicar quando Florianópolis passou a ser reconhecida como uma referência em inovação. No meio desse percurso, a cidade ganhou uma geografia curiosa. Entre o Centro e o Norte da Ilha, um conjunto de universidades, centros de pesquisa, parques tecnológicos, empresas e espaços de convivência passou a concentrar uma parcela importante da economia e da criatividade catarinense. Há mais de uma década, esse trecho da SC-401 é chamado de Rota da Inovação.
O nome foi oficializado apenas em 2013, mas a história começou muito antes. Ainda nos anos 1990, as primeiras empresas de base tecnológica deixaram o centro de Florianópolis em busca de espaço para crescer. Instituições como o Parque Tecnológico Alfa, a Fundação CERTI e o CELTA deram início a uma revolução silenciosa que transformou a região em um endereço quase inevitável para quem trabalha com tecnologia. Nos anos seguintes, a ACATE, o Sapiens Parque, incubadoras, investidores e novos negócios se instalaram no trecho.
A rota surgiu de forma natural a partir do que já existia ali. As empresas e as pessoas ocuparam o espaço antes. É justamente essa ordem que ajuda a explicar por que Florianópolis construiu um ecossistema de inovação diferente da maioria dos municípios brasileiros.
“Muitas cidades constroem primeiro os espaços e depois tentam atrair empresas. Aqui aconteceu o contrário. Florianópolis já tinha um ecossistema muito forte. Os ambientes surgiram para conectar quem já inovava”, afirma Thaís Nahas, diretora da Vertical de Smart Cities da ACATE.
Hoje, no entanto, essa densidade já não está restrita à rota. Desde 2018, Florianópolis mantém a Rede de Inovação, programa desenvolvido em parceria entre Prefeitura e ACATE que credencia centros de inovação em diferentes regiões da Capital, ampliando o ecossistema para além da SC-401. É por isso que Nahas faz questão de separar os dois fenômenos. “A rota ainda faz muito sentido pela densidade, apesar de não ter um trabalho tão focado nem uma governança própria. Mas a inovação já está espalhada pela cidade.”
É nesse contexto que o Passeio Primavera ganha protagonismo. O empreendimento abriga o Centro de Inovação ACATE Primavera (CIA) e atua como um dos principais pontos de encontro entre empresas, investidores, universidades, aceleradoras e o poder público. “O Passeio não é um ecossistema de inovação. É um habitat de inovação”, resume Nahas, conceito adotado em estudos desenvolvidos na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Um ecossistema é a rede de relações entre universidades, empresas, governo e investidores. Um habitat é o espaço físico onde essas relações acontecem, e é ali que cabem escritórios de fomento à inovação, entidades do setor, empresas de tecnologia e até representações do Governo do Estado, presentes no local através do LinkLab.
A diferença pode parecer apenas semântica, mas ajuda a entender como Florianópolis construiu sua reputação, e também explica por que o Passeio Primavera tem função formal dentro da Rede Municipal de Inovação. O centro concentra empresas e escritórios diversos, e mantém um serviço batizado de One Stop Shop, o balcão de atendimento para quem quer empreender com inovação. Não existe em Florianópolis, reconhece Nahas, uma estratégia formal de cidade inteligente amarrando tudo isso. O papel que o hub cumpre é outro: incentivar o empreendedorismo promovendo encontros.
E eles acontecem o tempo inteiro. É ali que ocorrem eventos, mentorias, programas de aceleração, reuniões entre startups e investidores, além de iniciativas voltadas para quem quer empreender. O encontro entre as pessoas promove a inovação. Essa lógica também ajuda a explicar por que muitas soluções tecnológicas desenvolvidas em Florianópolis começam a ser testadas antes mesmo de chegarem ao mercado.
Em 2019, o programa Living Lab Florianópolis selecionou dez soluções para testes em ambiente real na cidade. Uma delas era um sensor sem fio de contagem e presença de veículos, que precisava de um espaço concreto para validar o funcionamento antes de virar produto. O primeiro ambiente de testes foi o estacionamento do Passeio Primavera, cedido pela Hurbana. Deu certo: depois dos primeiros testes, a tecnologia passou a ser usada nas entradas e saídas das pontes da Capital, e hoje integra projetos em diferentes cidades brasileiras, com êxito comercial reconhecido pela própria coordenadora do programa na época.
Não foi um episódio isolado. Muitas outras soluções são testadas assim, porque as empresas se localizam nessa rota e acabam testando os produtos nos seus próprios ambientes. A rota continua sendo o lugar onde esse movimento pode ser visto com mais nitidez. Mas talvez seu maior legado seja justamente este, mostrar que a inovação deixou de caber em um único endereço.









