Às nove e meia da manhã, o Café Cultura do Passeio Primavera já não tem quase nenhuma mesa livre perto das tomadas. É o horário de quem chega para ficar: notebook aberto antes mesmo do primeiro gole de café, fone de ouvido pendurado no pescoço à espera da próxima call, post-its coloridos em uma mesa que vai abrigar um dia inteiro de trabalho. No Passeio, a cafeteria virou também escritório.
João Pedro Knoth é um dos rostos que compõem este cenário. Designer, sócio do Hall Branded Studio, ele fechou o escritório presencial em São José há dois anos para ter liberdade de trabalhar de onde quisesse. Na prática, isso significou construir uma rotina em cima de poucos endereços de confiança, e o Passeio Primavera é um deles, visitado pelo menos duas vezes por semana.
A decisão de João Pedro faz parte de um movimento que ganhou corpo depois da pandemia. Um levantamento da KPMG feito em 2024 com empresas de diferentes setores no Brasil constatou que, antes de 2020, apenas uma fração pequena delas já tinha experimentado algum modelo de trabalho remoto. A adaptação forçada pelo isolamento virou hábito e o hábito virou preferência de uma geração inteira de profissionais que não têm mais um endereço fixo de trabalho.
Florianópolis entrou nesse mapa de um jeito difícil de ignorar. Em 2022, a cidade apareceu entre os dez destinos mais buscados do mundo inteiro no Airbnb para o ano seguinte, ao lado de lugares como Sydney e Bangkok, justamente no ciclo em que a plataforma passou a associar esse tipo de busca à flexibilidade que o trabalho remoto e híbrido trouxe para quem viaja. Em 2025, voltou a aparecer na lista de destinos em alta. Não é coincidência que uma cidade de economia apoiada em tecnologia, com um dos maiores índices de desenvolvimento humano do país, tenha virado destino de quem carrega o trabalho na mochila. Mas é preciso ter, além da vista, onde sentar.
Existe um nome de sociologia urbana para esse tipo de lugar desde os anos 1980. O americano Ray Oldenburg chamou de terceiro lugar os espaços que não são casa nem trabalho, mas cumprem função das duas coisas ao mesmo tempo: café, livraria, praça, ponto de encontro. Para Oldenburg, o que sustenta esses lugares é o desconhecido, ou seja, a companhia de pessoas aleatórias fazendo, lado a lado, a mesma coisa. Existe até um apelido circulando nas rodas de quem trabalha assim: coffice, café mais escritório, no português.
O Café Cultura, marca nascida na Lagoa da Conceição e hoje espalhada por Santa Catarina, foi construído em cima dessa lógica antes mesmo de virar tendência. Café torrado na casa, tomada em cada mesa, cadeira confortável para quem precisa trabalhar. No Passeio Primavera, a unidade funciona como extensão natural do empreendimento, cercada por outros comércios, em um trajeto tranquilo para quem, como João Pedro, vem de fora.
“Aqui é um espaço que me permite tudo. A concentração, o descanso, o almoço, o networking. Eu já conheci clientes porque eles estavam sentados na mesa ao lado da minha, também trabalhando“, conta o designer.
A frase mostra que o networking deixou de acontecer só em evento marcado e passou a acontecer por acaso, em ambientes que propiciam encontros. Para quem trabalha sozinho, como boa parte dos designers, consultores e freelancers, esse acaso tem valor concreto.
“Eu tomei essa decisão pela liberdade de poder trabalhar onde quiser. Mas é importante também ter uma lista de locais que tu sabe que sempre vai te entregar o que tu precisa. Aqui é um deles“, diz.
É essa exigência que explica porque espaços como o Passeio Primavera passaram a fazer parte da rotina de tantas pessoas. Poder sair da frente do computador para tomar um café, encontrar alguém conhecido no caminho, almoçar sem precisar atravessar a cidade. Para quem ganhou a liberdade de escolher onde trabalhar, a escolha acaba sendo menos sobre onde é bom passar o dia.









